Volkswagen reúne-se com cortes profundos em cima da mesa
A Volkswagen atravessa um dos momentos mais delicados da sua história recente. O grupo alemão discute cortes profundos, possíveis fechos de fábricas e uma reorganização que pode mudar o futuro da marca.
Volkswagen pode cortar até 100 mil empregos
O conselho de supervisão do Grupo Volkswagen reúne-se esta quinta-feira, 9 de julho, num momento crítico para o construtor alemão. Em discussão estão medidas de grande impacto, com o objetivo de tornar o negócio mais sustentável num contexto de forte pressão financeira, industrial e comercial.
Entre os temas em análise estará o possível corte de até 100 mil postos de trabalho. Este número representa o dobro do que estava inicialmente previsto, uma vez que os planos anteriores apontavam para cerca de 50 mil cortes.
A medida terá de ser justificada pelo diretor-executivo Oliver Blume, que enfrenta também o desafio de convencer os sindicatos. Na Alemanha, os representantes dos trabalhadores têm historicamente grande influência nas decisões industriais, especialmente em empresas com a dimensão e importância da Volkswagen.
Fecho de fábricas também pode avançar
Além dos cortes de pessoal, a imprensa internacional aponta para a possibilidade de encerramento de quatro fábricas na Alemanha. A medida surge associada ao excesso de capacidade de produção, um dos problemas que o grupo tem tentado resolver nos últimos anos.
A sobrecapacidade acontece quando uma empresa tem capacidade instalada para produzir mais veículos do que consegue vender ou do que o mercado justifica. Na indústria automóvel, este problema é particularmente sensível porque manter fábricas, equipas, fornecedores e linhas de montagem tem custos muito elevados.
No caso da Volkswagen, a situação tornou-se mais complexa com a quebra de competitividade em alguns mercados, a pressão dos fabricantes chineses e o retorno abaixo do esperado em determinados modelos elétricos.
Sindicatos contestam antes da decisão
Mesmo antes de serem conhecidos os resultados da reunião, os protestos já começaram. O sindicato IG Metall referiu que cerca de 400 pessoas se concentraram em Wolfsburgo, cidade onde fica a sede da Volkswagen, para contestar as potenciais medidas do grupo.
A reação sindical mostra a tensão em torno do processo. Qualquer decisão que envolva despedimentos em larga escala ou fechos de unidades industriais terá impacto não apenas na empresa, mas também nas regiões onde a Volkswagen é um dos principais empregadores.
A força dos sindicatos alemães torna este tipo de plano mais difícil de implementar. O grupo terá de encontrar um equilíbrio entre a necessidade de cortar custos e a pressão social e política para proteger emprego e produção nacional.
Baixa Saxónia pode ter papel decisivo
A estrutura acionista da Volkswagen torna o processo ainda mais complexo. O governo da Baixa Saxónia detém cerca de 20% do grupo e tem um peso relevante nas decisões estratégicas.
Este detalhe é importante porque a Volkswagen não é apenas uma empresa privada tradicional. A presença do governo regional no capital da empresa cria uma ligação direta entre decisões empresariais, política industrial e emprego local.
A disponibilidade da Baixa Saxónia para aceitar eventuais fechos de fábricas tem sido alvo de informações contraditórias. Segundo a WirtschaftsWoche, citada pela Reuters, o governo regional poderia estar disposto a aceitar algumas medidas. No entanto, outra fonte do executivo estadual terá afirmado que essa possibilidade “não faz sentido”.
Grupo tenta responder à sobrecapacidade
A Volkswagen já tem procurado soluções para reduzir o impacto da capacidade excessiva das suas fábricas. Uma das alternativas passou pela parceria de defesa com a fábrica de Osnabrück.
Outra possibilidade em análise nos últimos tempos foi a produção de modelos chineses em instalações alemãs. Esta solução permitiria aproveitar linhas de produção existentes e reduzir a pressão sobre fábricas com menor utilização.
Volkswagen emprega cerca de 650 mil pessoas
O Grupo Volkswagen conta atualmente com cerca de 650 mil trabalhadores. Esta escala ajuda a perceber o impacto potencial de um corte de até 100 mil empregos.
Uma redução desta dimensão representaria uma das reestruturações mais profundas da história recente do grupo. Além dos trabalhadores diretamente afetados, o processo poderia ter efeitos em fornecedores, regiões industriais, logística, serviços e economias locais dependentes da atividade da empresa.
A Volkswagen é um dos maiores grupos automóveis do mundo, com marcas como Volkswagen, Audi, Porsche, Skoda, Seat, Cupra, Bentley, Lamborghini e Ducati. Por isso, qualquer alteração estrutural na empresa tem impacto muito além da Alemanha.
Blume admite mudança profunda no modelo de negócio
Oliver Blume já tinha reconhecido, em março, a necessidade de uma mudança estrutural. O CEO da Volkswagen afirmou que “o nosso modelo de negócio das últimas décadas já não funciona”.
A frase resume o desafio enfrentado pelo grupo. Durante anos, a Volkswagen beneficiou de escala global, forte procura na China, domínio em motores de combustão e capacidade industrial elevada. Hoje, o setor mudou.
A eletrificação, o software, a concorrência chinesa, as novas regras ambientais, as tarifas e a pressão sobre preços obrigam os fabricantes tradicionais a reverem estratégias que durante décadas sustentaram o seu crescimento.
Fonte: Reuters
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